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A migração de índios para os meios urbanos é um processo nada fácil e simples vivenciado pelos povos da floresta. A saída de seu habitat ocorre por inúmeros motivos e todos geram medo, insegurança e dúvidas. Mas em meio ao turbilhão de sentimentos eles usam da arte para sobreviverem e mostrarem sua potência. É o artesanato, a escrita e a vivência que encantam e abrem caminhos.

Um dos motivos para essa mudança de espaço é a busca por conhecimento e aperfeiçoamento de habilidades. Em 2012, quando foi criada a lei que obriga as instituições de ensino superior federais a reservarem vagas para índios que estudaram na rede pública, a lei de cotas, foi possível ver com mais frequência a presença dos indígenas nesses espaços.

Uma dessas vidas é Rodrigo Wai Wai, 41, que pertence a Aldeia Mapeuera, próximo do município de Oriximiná, no oeste do Pará. Em 2016, ele deixou a aldeia e seguiu para Belém, para cursar odontologia na Universidade Federal do Pará (UFPA). Essa mudança não foi nada fácil para Rodrigo, que disse que tinha medo até de se comunicar.

“Eu não conhecia nada em Belém e também quase ninguém. Foi uma mudança muito brusca que necessitou de muita coragem. No início, eu tinha medo até de falar, pois ainda estava no processo de costume com a língua portuguesa de modo fluente”, disse Rodrigo.

Rodrigo Wai Wai produz e vende artesanato para sobreviver

Rodrigo diz que sempre teve aptidão pela área da saúde e na aldeia trabalhou com alguns profissionais e foram estes profissionais que lhe incentivaram a buscar por maior conhecimento. “Eu sempre trabalhei nessa área, pois sou técnico em enfermagem, mas em uma época eu trabalhei com um dentista e ele sempre falou para eu estudar e me aperfeiçoar. Foi quando aceitei a ajuda e o conselho dele e resolvi fazer o vestibular”, detalhou Rodrigo Wai Wai.

Rodrigo disse que veio para Belém na base da coragem, pois não tinha meio para se sustentar. De início morou na casa de estudantes, recebeu ajuda de algumas pessoas e foi em meio a dificuldade que a arte lhe ajudou a seguir o sonho. Ele começou a vender seus artesanatos para sobreviver.

“Entrei em contato com minhas irmãs e elas começaram a mandar material e produtos já prontos. Comecei a oferecer tanto na universidade como nas feiras e foi com isso que consegui me manter. Depois eu consegui uma bolsa na universidade, mas mesmo assim não deixei de vender o artesanato, pois é necessário para o meu sustento”, destacou.

No período da pandemia, ficou nítido para Rodrigo que o dinheiro arrecadado com as vendas faz toda a diferença no orçamento. “Como não está funcionando os eventos fiquei impossibilitado de vender as peças e fiquei vivendo apenas da bolsa. Fui para o fundo do poço, não está sendo fácil’, completou o indígena.

Rodrigo vende peças variadas como cestaria, brincos, colares com semente de morototo, caroço de tucumã, madeira, instrumentos musicais como flauta de bambu, maracá, arco e flecha e entre outros. “Aprendi tudo na aldeia com meus pais, desde criança trabalho com artesanato”, acrescenta.

A força kambeba

Ainda dentro desse universo de sobrevivência e de busca de conhecimento do povo indígena, Márcia Kambeba é mais um exemplo. Márcia Wayna Kambeba é escritora, poeta, fotógrafa, locutora, compositora, escritora, ativista, educadora, atriz, palestrante de assuntos indígenas e ambientais no Brasil e exterior. Nasceu na aldeia indígena Belém do Solimões no Amazonas e depois transitou por diversos lugares espalhando a cultura indígena. Atualmente, mora em Castanhal, no Pará.

É com o uso da arte que ela vem resistindo, inclusive, faz o uso do termo “artivista” para seguir e vender sua arte. “Há uma negação muito forte para a cultura indígena, aqui em Belém por exemplo não existe nenhum festival que valorize e mostre a arte indígena”, pontua Kambeba.

A indígena estudou Geografia na Universidade Estadual do Amazonas, fez Especialização em Educação Ambiental pela Faculdade Salesiana Dom Bosco e Mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas, mas paralelamente aos estudos sempre procurou se manter por meio de sua cultura.

A música, a paisagem, a vivência e a história indígena acabam sendo latente na vida de kambeba e ela diz que a própria história que tem acaba falando por si só. “Tudo o que vivo e o que aprendi na minha comunidade acaba sendo a minha voz e todo esse aprendizado e vivência busco mostrar para o resto do mundo por meio da arte. Essa arte é muito viva em todos nós”, acrescenta kambeba.

Já lançou dois livros, “Ay kakyri Tama “( eu moro na cidade) e “O lugar do saber”. Márcia Kambeba é membro da Academia Formiguene de Letras em Formiga MG, ganhou algumas comendas dentre elas a Comenda Seu Duca de Cultura e a comenda Paulo Frota de Direitos Humanos. Tem participação em várias antologias.

Trabalha com a educação dos sujeitos indígenas e não indígenas. Seus poemas são de cunho político, ambiental e de resistência. Trabalha com a licenciatura Intercultural indígena dentro e fora das aldeias. Pesquisa sobre a questão indígena e Amazônica.

“Onde é que tem um festival de cinema indígena? quando foi que pisamos no Teatro da Paz para mostrar nossa arte? A cidade ainda nos deixa invisíveis. Ser indígena artivista e viver na cidade é resistir de muitas formas”, pontua.

 

FONTE: Oliberal

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