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A população negra foi a mais afetada pelo novo coronavírus no Pará: estima-se que 82,3% dos infectados pela doença são pretos ou pardos, de acordo com Relatório de Evolução da Prevalência de Infecção pela covid-19 no Estado do Pará. O documento organizado pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) utilizou uma amostra de 8.826 entrevistados para produzir indicadores e tendências relacionadas ao perfil da pandemia no Pará. 70,4% das infecções documentadas no relatório foram em pessoas identificadas como pardas. Negros representam 12,8% do total de paraenses com diagnóstico positivo, enquanto o 12,1% são identificados como brancos. O relatório apresenta amarelos com 2%, indígenas com 1,5% e etnia não informada com 1,1%.

Maria Bernadete Caldas é secretária do lar e se sentiu mal pela primeira vez no dia 26 de abril. Um mês depois, foi diagnosticada com covid-19. Para ela, a fase inicial da pandemia foi de pouca informação por conta da correria do dia a dia. “Com tudo tão recente, não sabia como me defender do vírus de verdade. Houve pouca consideração com a gente por parte do poder público mesmo”, avalia ela. A Berna, como prefere ser chamada, foi afastada do trabalho assim que a patroa percebeu que o vírus havia chegado em Belém, mas continuou recebendo. “Fiquei trancada e o vírus mesmo assim me pegou aqui dentro, talvez por falta de cuidado. Meu filho teve os mesmos sintomas que eu tive, mas ainda não havia caso confirmado em Belém na época”, diz ela, que além do filho também mora com o marido.

Apesar de ter ficado muito mal, Berna evitou ir para hospitais e preferiu ficar em casa mesmo no período que esteve infectada. Ela conta que sentiu muitas dores no corpo, especialmente nas costas. “Tinha que dormir sentada na rede. Não conseguia deitar. Fiquei muito fraca mesmo. Acho que foi um erro muito grande isso de faltar o auxílio na casa das pessoas. Mandavam não ir para o hospital, mas não vinham dizer o que era para fazer, tranquilizar a gente, medir pressão. Nada”, lamenta ela ao lembrar que na vila onde mora, na rua Barão de Igarapé-Miri, no bairro do Guamá, quase todo mundo ficou doente – e desassistido – ao mesmo tempo. Ao ouvir sobre o dado de que pretos e pardos foram mais atingidos pela pandemia, ela revela não estar surpresa. Na opinião de Berna, faltou acompanhamento de saúde na periferia. “Se fosse para dar nota, avalio essa estratégia com uma nota baixa. Meu esposo perdeu o primo dele, a tia. Vi todo o povo do bairro sofrendo. Falta a saúde básica mesmo, que é aquela que bate na porta e confere se a pessoa está bem. E isso precisa ser reforçado agora”, fala ela, temendo uma segundo onda de proliferação do vírus em Belém.

Ilma Pastana é coordenadora do Programa de Residências Multidisciplinares da Uepa. Enfermeira aposentada, ela conta que o combate ao coronavírus foi desafiador para todos, mas que de fato a periferia e, por consequência, a população negra, sofreram mais impactos em todos os aspectos. “Uma saúde pública exitosa depende de boa atenção para a saúde da família, com acompanhamento constante e com equipes de saúde que conheçam de fato onde está cada caso. Para a população negra e periférica dos grandes centros urbanos, isso é fundamental. É a chave”, entende a professora.

Ela conta que a pandemia serviu para reforçar uma visão que ela sempre teve: que a prevenção, base da saúde da família, é o melhor caminho. “Na pandemia, nossos grupos trabalharam com pesquisas epidemiológicas. Muitos profissionais de saúde, não só aqui mas em todo o Brasil, adoeceram nesse processo de monitoramento e coleta de dados que foi decisivo no enfrentamento ao vírus no Pará”, conta ela. Para Ilma, a lição que estes dados trazem é de que as periferias e a população negra precisam de atenção especial por conta das vulnerabilidades sociais que possuem em um país tão desigual como o Brasil. “A dificuldade de acesso à saúde, questões de emprego e renda, possibilidade de trabalhar em casa ou não. Tudo isso piorou a situação da pandemia para esta parte da sociedade. Por isso, precisamos valorizar a saúde pública sempre. É o meu desejo”, conclui.

FONTE: Oliberal

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