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Nascida Chaya Pinkhasovna Lispector na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, foi ao desembarcar no Brasil antes dos dois anos de idade que a menina se tornou brasileira e Clarice, e nunca deixou de ser nenhuma das duas. Nas celebrações de seu aniversário de 100 anos, a vida e obra de Clarice Lispector se mantêm mais relevantes que nunca, com uma série de lançamentos que festejam e tentam desvendar aquela que é um dos maiores nomes da literatura nacional.

“Clarice, veio de um mistério, partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele”, escreveu Carlos Drummond de Andrade após a morte da escritora, tradutora e jornalista que, em mais um de seus enigmas, deixou o mundo um dia antes de seu aniversário, em 9 de dezembro de 1977. Para a professora Amarilis Tupiassu, que se intitula uma “obcecada” pela obra e pessoa de Clarice Lispector, a escritora se mantém tão relevante justamente por causa desse segredo,  por ter sido uma daquelas pessoas que lançou luz nas trevas da existência humana.

“Esse mistério do humano, e do mundo, e de tudo, é muito difícil de penetrar. É exatamente esse mistério que está de uma forma impressionante no Machado de Assis, no Guimarães Rosa, nos grandes poetas pelos quais você não passa sem parar, sem folhear, sem ler, e sem memorizar. A Clarice pertence a essa estirpe de grandes escritores que conseguiram quebrar aquela casca do mistério e falar desse inefável que está todo tempo na vida da gente. É isso que nos leva a Clarice, ao Max Martins, aos grandes criadores, e você pode estender isso à arte em geral, ao Van Gogh. É essa tentativa de dizer o que é o ser e o que é o mistério do ser”, fala Tupiassu, completada lá do éter pela própria Clarice.

“Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. […] Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”, escreveu a autora em uma crônica publicada em A Descoberta do Mundo, falando sobre o fardo que era ser alguém que enxerga através da cortina que cobre o Universo.

Brasileira

Clarice Lispector fazia questão de reforçar que, ainda que nascida na Europa no meio da fuga de sua família por causa da Guerra Civil Russa, ela era brasileira, já que “naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo”. Aqui, Clarice morou em Maceió, Recife, Rio de Janeiro e em Belém, passando no Pará uma de suas fases mais introspectivas.

Clarice no Largo da Pólvora - hoje, Praça da República Livro Clarice Fotobiografia/Reprodução ()

“Aqui em Belém, ela fala dessa solidão. Há um grande mistério na vida da Clarice, que é seu casamento. Ela fica casada com um diplomata [Maury Gurgel Valente] e em tudo que ela escreve, ela mostra um pouco de rigidez, nunca demonstra amor por ele. Ela passa esse tempo aqui em Belém, com ele, sozinha, e eles ficam hospedados no Central Hotel, e ela fala dessa solidão. ‘Às vezes mesmo passo uns dois dias sem fazer nada, mesmo sem ler, e com a impressão de que escrevi muito, de que li, de que trabalhei’, diz em uma carta a Lúcio Cardoso. Mas ela começa a escrever um livro aqui, ‘O Lustre’. Eu acho que é um dos tempos de mais reflexão. É como se ela mergulhasse no vácuo de sua própria solidão”, explica a professora, que diz que se decepciona quando biografias não citam o período de seis meses que Clarice morou em Belém, em 1944. Ela participou aqui de encontros literários organizados pelo professor Francisco Paulo Mendes, que foi um importante mentor intelectual e mais tarde, um grande amigo.

Homenagens

Neste centenário, a Editora Rocco lançou o livro “Todas as cartas”, que reúne correspondências escritas por Clarice Lispector ao longo de sua vida, com uma seleção de missivas – muitas inéditas ao público – que ajudam a compreender a trajetória literária da escritora. A Rocco também lançou, em parceria com a plataforma de audiolivros Tocalivros, o projeto Vozes de Clarice, que teve início em dezembro de 2019 com o aniversário de 99 anos de Lispector. Na ocasião, os primeiros títulos da autora começaram a ser lançados em todos os formatos: impresso, eBook e audiolivro. Neste ano, as edições comemorativas do centenário contam com novo projeto editorial e capas que retratam pinturas feitas pela própria escritora – que também era pintora.

Além disso, o Instituto Moreira Salles (IMS) lança hoje, no aniversário de Clarice, um site bilíngue – em português e inglês – com fotos, manuscritos, áudios, vídeos, cartas, aulas e textos críticos (claricelispector.ims.com.br).

Com essas homenagens, podemos nos debruçar sobre esse enigma de um século que é essa mulher, mãe e escritora, na tentativa de entendê-lo ou simplesmente, amá-lo pelo que ele é, pois segundo a própria Clarice, quando até a escrita deixar de existir, ainda haverá o amor: “Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba”

FONTE: Oliberal

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